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Não sei, não me lembro bem, mas era escuro

Oi Ibon e Rafa, vou contar o sonho que tive para vocês, inventando um receptor que me legitima escrever assim, como quem fala. Foi essa noite e eu levava noites que queria sonhar para contar para vocês e eu sonhava e no meio do sonho eu lembro da sensação de ter o compromisso de lembrar e eu esquecia, assim que acoradava esquecia e só lembrava do compromisso. Aí essa noite, fazem algumas noites, sonhei e lembrei, mas também esqueci, lembrei de partes e esqueci do todo. Primeiro eu morava com meus pais, mas eram casas independentes que se conectavam pela mesma sala e eu me mudo dessa casa e minha prima se muda para essa casa que era a casa dos meus pais mas que era a minha, a que eu deixava. Essa sala tem uma porta que é um corredor que dá para a rua, minha prima tá fazendo uma chamada de video, um skype ou um zoom ou outra plataforma e minha mãe abre a porta e chega com as compras da rua e aparece nesse espaço intimo vitual. Minha prima explica que ela se mudou e porque o espaço intimo dela é invadido, porque na verdade é um espaço compartilhado, entre um individual e coletivo. aí escrevendo o sonho agora eu fico pensando se um espaço assim, limite, corredor entre o individual e o compartilhado pode ser invadido. Eu não sei, é uma questão mesmo. Mas ela tava loira, minha prima tava loira e contava como tinha ficado tão loira, todo o processo para fazer-se tão loira. Essa era a primeira parte do sonho, o primeiro fragmento. Logo depois eu apareço, morando com uma outra pessoa que na verdade tá indo embora, tá deixando a casa que compartilhavámos e esvazia a casa, coloca na rua as estantes, por exemplo. No sonho eu entendo que é um direito dela, ela comprou essas estantes, ela pode dar o destino que quiser para essas estantes, mas reconheço que dentro dessas estantes estão uma série de livros, os meus livros e eu fico brava e me encho de coragem para reclamar essa injustiça "pô cara, mó vacilo, se nem me falou que ia botar tudo na rua e entre essas coisas estão os meus livros" - ela não me fala nada, não me responde - "Você não vai falar nada mesmo? Você não vai nem tentar me pedir desculpa?". Aí tem outra coisa, como se fosse um terceiro tempo do sonho, mas não é bem um sonho, é uma série dentro do sonho. Nessa série cada capítulo é a prespectiva de um personagem, a primeira prespectiva é a minha que sou um personagem, eu sou uma tonta, meio que não sabe como e onde se colocar, fem demais para ser masc e masc demais para ser fem. Eu tento me adaptar a energia do outro e não frustrar ninguém, principalmente a da minha mãe, uma mãe muito dominante, sedutora, que consegue tudo que quer. Fem, 100% Fem. Nessa série sonho eu sou a filha do meio, tem uma que não aparece. A gente vive mau, como se fosse num lugar muito escuro e úmido, meio cortiço, e eu lembro que tem um banheiro muito sujo e abandonado. A arquitetura dessa banheiro é como se fosse um banheiro da escola pública que eu fiz o ensino médio no brasil, muito grande, com corredores de cabines e detalhes azuis, talvez se parecesse também ao banheiro público da praia de Sopelana. Acho que a gente era meio traficante, mas não de droga, não sei direito do que era, só lembro da sesação de fazer algo que não era totalmente legal e envolvia troca de algum objeto. Minha irmã, a mais velha, era a imagem e semelhante dessa mãe, sedutora, controladora, bonita, que consegue tudo que quer, barraqueira, cruel... uma coisa assim tipo a mitologia que se criou da Suzanne Von Richthofen agora com o laçamento de tremembé. Elas operam nessa chave da guerra "Eu quero, eu consigo, eu faço" e eu lembro que apesar delas usarem artificios muito femininos que eu não conseguia usar como a beleza e a sedução no sonho eu entendia essa energia como masculina, a energia da guerra, de marte. E eu era muito pouco masc para poder ganhar, muito pouco fem para poder ser masc e ganhar.

Raira Rosenkjar
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